à procura do caminho

* Maria Keil



Eu vejo que anda cansado, desmotivado, parece-me triste. Vejo com olhos de mãe. Acho que mais ninguém vê o que vejo quando olho para ele, ninguém sente no sangue aquilo que o meu filho está a sentir. Antes que ele se perceba, já eu vi tudo.

Mas afasto os pensamentos. Não é assim tão grave. É normal. Ele até tem uma vida priveligiada em relação à maioria das crianças de hoje.

Está cansado. "Não me apetecia nada ir para a escola hoje... queria tanto ficar em casa." Digo-lhe que não pode ser. Penso que até podia. "Mentirosa", digo a mim própria.

São muitas as vezes que me diz que não gosta da escola. E quando o diz, sinto a sua tristeza, a sua alma vazia. Dói. Depois lá vem o dia em que o vou buscar e pede-me para ficar a brincar um pouco mais e o meu medo arrefece, fico mais descansada, afinal era coisa de miúdos.

Em casa, o ritual de sempre, nunca temos o tempo que era de esperar - dadas as circunstâncias. As circunstâncias que todos pensam saber e sobre as quais gostam de opinar. As circunstâncias tão priveligiadas para uns, tão assim-é-que-deve-ser para outros. Porque o privilégio de o meu filho vir almoçar a casa e às cinco e meia já estar de volta é o mínimo que eu lhe posso/devo dar, no meio de toda esta paranóia actual a que se chama normalidade. Sim, eu protejo o meu filho. E não, não sou a mãe perfeita, muito longe disso.

Continuo a achar os trabalhos de casa, depois de oito horas de trabalho, um exagero. Ele é esperto, faz tudo com uma perna às costas. Mas a vontade... a motivação... Essas competem-me a mim reinventar, não me parece que a escola as ache importantes.

Ainda não agradeci à professora o cartão que recebi no dia da mãe. Não sei bem como lhe dizer o bonito que estava a sua caligrafia, o seu coração recortado e o seu lindo texto. E agradecer o facto de ter deixado o meu filho copiar as suas palavras e enrolar os papelinhos. O M. deu-mo logo de manhã, o começo de um dia perfeito, devo dizer, explicando-me que foi a professora que fez aquilo, aquilo e aquilo. E que o texto foi mandado copiar, todos escreveram o mesmo.
A ver se não me esqueço de agradecer também a linda coroa de cartolina que veio para casa na Páscoa, onde o meu filho de seis anos e meio colou algodão no corpo da ovelhinha.... Podia jurar que foi buscar a ideia à sala da pré-escola.

Ainda na última reunião tinha dado a entender à professora que os trabalhos manuais fazem falta e deviam ser parte integrante do horário escolar, ao qual respondeu que isso já fazia parte das suas aulas e que os meninos faziam muita coisa... Sim, fazem desenhos de vez em quando. Sim, fazem o suposto presente naquelas datas. Onde estão os verdadeiros trabalhos?

Hoje, para além dos t.p.c., tinha que escrever várias vezes uma palavra que falhara no ditado. Em vez de duas linhas, escreveu uma linha. Achei suficiente para aprender a palavra. Vendo toda aquela desmotivação, olhando para um filho que tem tudo para ser brilhante e vendo-o triste, perguntei: " - Gostavas mais se a mãe fosse tua professora cá em casa, em vez de ires para a escola?" E nesse momento, os olhos dele brilharam como há muito eu não via, ficaram enormes, todo ele se iluminou. "- E podes?!"

Logo a seguir perguntou-me se podia fazer um ditado. Depressa o cansaço desapareceu e toda a sua força de leão veio ao de cima. Apanhei um livro dos meus, ditei duas frases, ele escreveu. Dei-lhe a ideia de ser ele próprio a verificar os erros e não eu. De seguida, pegou ele no livro, ditou-me duas frases, eu escrevi-as e ele, deliciado, corrigiu-as.

Acho que preciso de ajuda.

14 comentários:

Anis disse...

As tuas palavras emocionaram-me! A minha filha foi para a cresche aos 4 meses de idade e lá ficava todos os dias a chorar e a estender-me os braços, todos os dias "morria" um pedaço de mim e vinha de lá a chorar (os cabelos brancos começaram a surgir) sei que passava o dia tristinha e eu com o coração apertado no trabalho ao qual não podia faltar, a situação só melhorou com a passagem para o jardim de infância aos 2 anos (acho que a mudança de educadora ajudou muito). Hoje está na pré-primária chorou bastante no primeiro dia, mudança de escola e de turma e eu mais uma vez lavada em lágrimas pensando que ia começar tudo outra vez, mas não, agora está radiante e já fez novas amizades. Vamos ver para o ano na primária fico ansiosa será que se vai adaptar bem? Tenho pena não te poder ajudar só posso partilhar contigo a minha experiência e da minha filhota, ás vezes dói, dói muito! Gosto muito de passar por aqui!
Beijinhos que tudo corra bem

Rita Quintela disse...

Gostei tanto deste post

Anónimo disse...

Não sei se posso ajudar-te Virgínia! Concordo inteiramente com o teu filho. Desde que :

1 - Tenhas tempo para empreender esse grandioso e intransmissível projecto de educar;
2 - Assumas estratégias para ele não perder o contacto assíduo com outras crianças e pessoas ( ou seja não haja uma colateral dessensibilização social );
3 - Haja possibilidade intra - relacional entre mãe e filho de, sem recurso a dicotomias estanques, distinguir o que são os tempos de instrução dos tempos de recreio.

A escola é estúpida e estupidificadora. O desagrado do teu filho é sintomático de inteligência, saúde e apetite de liberdade.

Caso conheças um Mestre que possa educá-lo com Amor e Sabedoria, confia-o sem hesitações. Doutro modo, ningúém melhor que tu o fará!

Não te conformes, não adies por receios o que o discernimento recomenda sem ponderação.

P.

ritacor disse...

Como eu te entendo...
Cá em casa passa-se exatamente a mesma coisa. Só não me rendo ao homescholing porque não tenho mesmo tempo para o fazer de forma adequada. e somo muitos ;)

Coragem!
:)

Virgínia disse...

Meus amigos, acho que não há maior arrependimento do que aquele que já adivinhávamos... a certeza é tão grande quanto o medo, e o tempo passa demasiadamente rápido.
As vossas palavras ajudam muito.
Vamos ver no que isto dá. Avistam-se mudanças.

M. disse...

Olá Virgínia!
Ai como, novamente, me revejo nas tuas palavras.
A minha filha acabou por mudar de escola e foi uma mudança radical que teve os melhores efeitos. Mas continua a ser "poucochinho" - não a vejo com o entusiasmo que lhe era característico. Parece-me/lhe tudo um bocadinho infantil. Até ao ano passado tinha tido uma educadora excepcional, agora considero que tem boas professoras mas...falta, falta qualquer coisa. Falta voar um bocadinho.
Se podes, caminha no sentido de dar esse passo.
Eu faria isso. Mas mais ainda, penso que o tentava dar em comunidade. Porque nestas andanças (ainda tão verdes por cá) a experiência dos outros, a troca de experiências, parece-me essencial.
Um abraço.
M.

Virgínia disse...

M., pensei em ti quando escrevi este post, como estaria a tua filha, se estarias satisfeita ou se continuarias a sentir o mesmo que eu...
Eu concordo em relação a procurar uma comunidade. Sabes? Tenho a certeza que daqui a uns anos vai se falar muito disto no nosso país.
O primeiro passo, e para mim o mais difícil, é encontrar apoio.

Meninheira disse...

Ai Virgínia, qué magoa de post!!
Eu nao sei como posso ajudar, tu sabes que eu faço ensino domêstico na Espanha (onde nao está regulado). Se queres podes perguntar-me cualquer coisa, também há muitas portuguêsas ensinando na casa que posso avisar se tu me deijas fazer :D A decisão é só vossa mas se precissas algo que eu possa para ajudar-te...

Só uma coisa, a vida é só uma e é tao curta... nao penses na "normalidade", vive a tua vida como quixer, mas vívea!!

Um beijinho grande :*

sofia disse...

Também eu fiquei emocionada...
Deviam banir das escolas esses professores que não percebem o quanto é importante motivar os miudos
Puxar por eles de forma a realmente ensinar, como quem brinca e descobre e não como quem enfia na cabeça o que vem nos livros
Coitadinho que à ideia de sair da escola e ficar a aprender com a mãe fica tão feliz!...
Que tudo vos corra bem
Beijinhos

Pequete disse...

Virgínia, a vida é só uma, e devemos fazer com ela aquilo que nos parece ser o melhor - para nós e para os nossos filhos. Não tenhas medo da mudança, pois nada tem que ser definitivo. Os empreendimentos parecem-nos enormes e assustadores, apenas porque são desconhecidos e vão contra o estabelecido, contra a norma. Uma vez familiarizados com as coisas, tudo se revela simples, normal, certo. Ou não. E nesse caso, nada nos impede de voltar atrás.
Se precisares de ajuda, sabes onde estamos todos os que optámos por uma alternativa (por enquanto) pouco convencional.

rosário albuquerque disse...

Virgínia, não nos conhecemos pessoalmente, mas temos muito em comum. Gostei muito de ler o que escreveste. Quantos de nós não temos as mesmas dúvidas e inquietações? Retenho uma frase da pediatra dos meus filhos: "as mães fazem o melhor que podem, e o melhor que podem é tudo quanto os filhos precisam". Dita assim fora do contexto, pode até parecer um pouco vazia, mas teve tanto valor para mim. Nuna conversa de consulta, conseguiu transmitir-me mais do que todos aqueles que me rodeiam.
Um abraço

Li disse...

que lindo, que profundo, que sincero, veio do fundo da alma...adorei

força!

****
carol*

agora disse...

desculpa não saber ajudar, tenho vivido com essa angústia ao mesmo tempo que a tento afastar, afinal do que eles não precisam é de mães tristes e em conflito. tento mas não consigo. se puderes vai partilhando.

tive que resguardar o meu blog mas assim que tiver novidades venho dizer. vim cá avisar-ºte.

um beijo, ritaR

umademim disse...

olá virginia deixei o meu filho de 6 anos na escola a chorar a queixar-se que tem muito trabalho e vim aqui procurar o video de ana thomas para ver se acalmava o coraçao e se recebia alento....não quero um menino a aprender sem prazer e já repeti várias vezes incluindo à professora que não obrigarei filhos a lerem sem ser por prazer....posso até arranjar truqes mas à força não....beijinhos