34 redondas semanas

aqui e agora

Ainda sem grande vontade de falar ou de partilhar seja o que for, porque tudo parece tão fútil e cheio de nada depois da morte. Mas eu sei que é à vida que tenho que me agarrar, com força, e fazer dos pequenos nadas algo cada vez maior. Só assim a vida me parece ter algum sentido.
Sei que ainda estou longe de digerir o que aconteceu, de fazer as pazes com o facto de ter acontecido justamente agora, de aceitar ver retirada a vida a alguém que ainda tinha muito para viver quando há tantos para quem a vida lhes é indiferente e ficam cá apenas a desperdiçar o maior bem que lhes foi dado. Mas ao mesmo tempo sinto-me serena, há uma paz em mim que nem sei explicar, como se já tivesse vivido muito e soubesse que a vida é isto.
Lembro-me do dia em que, sentadas à mesa, lhe disse que queria tirar proveito do facto de estar desempregada e arregassar as mangas, trabalhar na terra, fazer algo daquele terreno, construir algo de valor. Os seus olhos brilharam de entusiasmo, aquele entusiasmo que me fazia acreditar que tudo era possível, porque se a minha avó acreditava é porque era possível. E conseguimos tanto. Ela mais que eu, conseguimos fazer jardins, muros e hortas, trabalho duro mas que me deu tanto prazer, mais prazer que outro trabalho qualquer. E a sua felicidade era a minha maior recompensa.
Sei que ainda não acordei, a mente trai-me e diz-me para lhe telefonar, não consigo entrar naquela casa nem sequer pegar nos trabalhos que deixou a meio para a bisneta que está quase a chegar.

Com tudo isto, agarro-me aos dias, devagar, esperando crescer.

aqui e agora

9 comentários:

SofiAlgarvia disse...

Com calma, Virgínia, aos poucos vais arranjar uma forma de "falar" com a tua Avó, de a sentires na terra, na obra que fizeram juntas, no bisneto com quem brincava, na bisneta que vai nascer - a Vida é uma amiga tramada - tira-nos quem precisamos mais, mas de vez em quando também nos dá algo - a ti será uma nova vida que aí vem!
Um bj

Carina disse...

Vírginia nem sei o que escrever, só sei que queria poder dar-te aquela força... mas eu nada posso, infelizmente... força! Muita força! Beijinho

sofiab disse...

Querida V., lamento muito a tua perda. Espero que tenhas muitas memórias boas que te façam sorrir e mantê-la viva ao teu lado. Abraço apertado.

aniki bobo disse...

..são momentos difíceis....mas de certeza que não tardarás a sorrir....
força e.... tanta coragem!

karura disse...

Linda, manchaste-me os olhos de agua... :-(

isabel disse...

Um grande abraço daqui para aí!

alexa violeta disse...

A tua escrita é maravilhosa, Virgínia!

Um abraço de força****

cátia disse...

no outro dia foi igual, aconteceu algo bom e pensei vou ligar-lhe... mas é isso, agarrar a vida. a vida que ela gostava de viver.

Rita disse...

:,) lindo e verdadeiro demais. Identifico-me tanto...