seguir o caminho

Caminho na areia, onde os passos pesam mais e deixo que o oceano me veja ali, a existir. Aquela dúvida que germinava cá dentro encontrou finalmente o seu lugar, como uma semente que espera ver a luz do sol. Talvez todas as dúvidas sejam sementes.

A vida pode exigir muito de uma pessoa. E isso é bom, eu gosto de acordar e saber que tenho muito para fazer. Mas conseguirei eu fazer tudo o que o dia pede de mim? E quando o consigo, é bem feito ou apenas feito? Estou a chegar onde quero chegar?
Tenho um pré-adolescente em casa que precisa tanto ou mais de mim agora como quando nasceu. Na verdade, ele nasce outra vez. Só que desta vez leva bagagem às costas. No outro dia apercebi-me de que já não me deitava a seu lado para ler um livro à noite há muito, muito tempo. E como soube bem voltar a fazê-lo. E como está grande, o meu bebé, que já quase não cabe na cama sozinho, quanto mais com a mãe ao lado. E ele adormeceu em paz, como dantes, feliz por ser filho.
Na outra cama, a dos pais (e dela), a pré-criança chama pela mama da mamã, porque há que saber exigir aquilo que queremos e que nos faz feliz. O que nos faz feliz é nosso por direito. Será? Acabei de inventar.

Como que a remar contra a maré, chegar ao fim do dia sem mais forças físicas e mentais para agarrar trabalho, dorme bem, até amanhã. É para isto que estou em casa? Para correr pelos dias sem conseguir fortalecer esta casa, esta família, esta minha vida? Não. 

Hoje descobri, ou melhor, aceitei que o facto de não conseguir trabalhar tanto como seria desejável me tem estado a fazer muito mal. Tudo o que faço, faço-o pensando que devia estar a trabalhar e que não o estou a conseguir fazer. E isto é pedir problemas. 
Para além de não estar a trabalhar, não estou presente naquilo que estou a fazer, seja a brincar com a senhorita Alecrim, seja a fazer o jantar para a família que está finalmente junta no seu abrigo seguro, seja mesmo a dormir, porque a tendência de quem não consegue deitar mão ao trabalho durante o dia é roubar horas à noite. 
E como se isso não bastasse, a pessoa que se culpa por não conseguir mais compara-se àqueles que o parecem conseguir. E tem medo. Tem medo de ficar para trás. E de deitar tudo a perder, depois de tanto trabalho para conseguir chegar onde chegou.

Mas o ressoar do bater das ondas hoje acalmou-me e disse-me que o meu verdadeiro caminho não é esse. O meu caminho é a tal busca da vida simples, inspirada e em comunhão com a natureza. Esse é o caminho que se abre à minha frente. E o medo acabou assim que a dúvida atingiu solo fértil. O fazer bonecos vai fazer sempre parte de mim mas não define o que sou. Ele é um ramo, não a árvore. E isso é bom e eu aceitei e o meu ego calou-se.

Isto para vos dizer que não vou aceitar mais encomendas nos próximos tempos, talvez até a cria mais nova começar a ir à escola. Espero com isto conseguir estar mais presente na vida dos meus filhos, ter mais tempo para enveredar por novos projectos, conseguir finalmente costurar para mim e muito, muito mais. 

Aqui voltarei sempre, como faço há quase seis anos, com muito gosto e muitas partilhas.



♥

14 comentários:

Alexandra disse...

Mãe. Coragem.

Alexandra Macedo disse...

: )

Jardim de Algodão Doce disse...

Compreendo perfeitamente o que sentes. Eu não consigo fazer praticamente nada com os miúdos em casa, então trabalhar em casa é missão impossível.

Força e concentra-te no que importa. E ao ler-te lembrei-me que também não deito à noite com o meu pré-adolescente há imenso tempo...mas tenho os outros dois pequeninos que requerem uma atenção GRANDE.

rosinha cruz disse...

Compreendo-te bem :)
Boa semana.
Beijinhos

Naná disse...

Não devemos ter medo de assumir que queremos abraçar o mundo e não conseguimos. Por vezes, perceber e aceitar isso mesmo é tudo o que precisamos para deixar de nos martirizarmos com o que não podemos fazer, e assim sermos mais felizes!

Marta Duarte disse...

Uma decisão sábia, mas nem por isso fácil de tomar :)
Grata pela partilha, que ecoa em mim como a imagem no espelho.

aniki bóbó disse...

Lindas palavras que tanto nos dizem e que sabes tão bem partilhar !! è isso mesmo, nós não somos uma ... somos mil e uma e por isso, a cada uma das nosssas mil facetas caberá pelo menos um instante das nossas vidas ! Gosto de pensar assim :)
Boa semana Virgínia !

filosofiabotequim disse...

Temos de fazer o que temos de fazer.Costumo dizer que a nossa única obrigação que temos no momento que nascemos é a de sermos felizes. Boa semana e força! ;)

Alexandra disse...

Completamente. Ler-te foi como ler-me. obrigada :D

cátia disse...

.
<3

raquel disse...

Um beijo, querida Virgínia.
Tudo de bom para si. Para seguir o seu caminho.
<3

Maria Duarte disse...

Muitas vezes precisamos de dar um (ou vários) passos atrás, para depois seguir em frente.
O mais importante é sermos felizes.
E, se a felicidade também a encontras nos "trapos", mais cedo ou mais tarde chegarás a ela, caminhando sem presas e sem culpas.

Um beijo

Ligia Seabra disse...

Sábias palavras! :)

Paulina ao piano disse...

E quem sabe, quais são as escolhas certas? Casa, trabalho e família são 3 grandes compromissos. A deixar para trás que seja o trabalho, ou as tarefas da casa. Mas a realização pessoal? Tudo é importante. Mais à frente na vida, encontrarás/encontraremos o ponto de equilíbrio. Por agora o cansaço de manter sempre todas as bolas no ar. Força.