por terras de Miguel Torga

casa da avó casa da avó casa da avó casa da avó casa da avó

De seguida fomos visitar a avó, que mora lá longe onde Miguel Torga nasceu, em São Martinho de Anta, no Reino Maravilhoso de Trás-os-Montes. Terra bonita, acolhedora, que sabe o que é viver em comunidade, onde nada se desperdiça e tudo se partilha porque tratar de um é tratar de todos. Ali há espaço, há tempo, há ar puro e água fresca da fonte, a mais deliciosa que alguma vez bebi. Há uma vila inteira que nos quer receber e contar o quanto gosta da minha mãe, felizes pela vida nova que ela para lá levou, pela sua energia e criatividade, pelo seu sorriso e amizade. 
E eu trocava já Cascais por Trás-os-Montes, se pudesse.

12 em Sevilha

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Ali tão perto esperava-nos Sevilha, sempre majestosa, orgulhosa, mais que pronta a mostrar o seu melhor, dia após dia. A sua beleza cénica leva-me a perdoar-lhe o calor abrasador e as ciganas que me roubam as mãos e a sina, verdadeiras profissionais de clarividência e de turismo, que sem elas a cidade não era a mesma.
Lá celebrámos o 12º aniversário do M., aquele que veio para nos ensinar a ser pais, que tudo o que mais quer é ver a família unida e feliz. Dói-me ver que a criança que foi já não volta, que a sua voz doce já não chama por mim da mesma maneira, que a vida já não é a mesma para ele. Todos os dias agradeço o facto de o ter perto de mim, de ainda querer a minha mão quando menos espero e até mesmo as zangas e as pazes. O meu amor por ele é antigo e assim será para sempre, eternamente. Vê-lo crescer, passo a passo, um em frente, outro atrás, respeitar-lhe o medo e a vontade, a força e a fragilidade, olhos nos olhos por agora que depressa me olhará do alto e eu cá em baixo, a mãe, a mãe de alguém tão grande que eu espero não ter moldado muito, que o que mais quero é vê-lo livre e feliz. Esquece tudo o que te digo e sê tu próprio, que as minhas palavras estão guardadas para quando delas precisares. Amo-te muito mais que mil milhões.

Algarve rural

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Fui, um pouco receosa do que poderia encontrar. Do Algarve descaracterizado que se vende ao desbarato em nome do turismo vi pouco ou nada, felizmente. E nem foi preciso procurar muito. É ficar uns quilómetros afastado da costa que ele ainda lá está, o Algarve português. Rural, quente, seco, silencioso. 
Uma casa encontrada à última hora (como já vem sendo tradição) era afinal uma quintinha simples e simpática, onde se fizeram novos amigos, se tomaram muitos banhos de piscina e se alimentaram animais que um dia servirão de alimento a alguém. 

E eu, que andara a conversar comigo mesma e tinha chegado à conclusão de que o que precisava era de um estágio numa quinta, fui levada até uma, sem ter a menor consciência disso. E a semana passou e a vontade de regressar a casa não aconteceu.

a horta na varanda

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A varanda deve ter medo de mim. Sabe que ralho com a despensa por ser tão pequena e com a cave e a arrecadação por não existirem.
A verdade é que esta pobre coitada é uma valente varanda. Porque as varandas não se medem aos palmos. E esta tem um coração grande, só pode. 
Se queremos sentar e brincar, ela alarga e sentamos e brincamos. Se queremos deitar no chão e observar as estrelas, ela aquece e vemos as estrelas. Se queremos sentar os convidados ao fresco, ela organiza-se e recebe uns poucos de cada vez. Se queremos brincar às hortas, ela diz-nos que à direita é o sítio ideal e comprova-o com o cheiro maravilhoso do tomateiro que cresce muito mais do que era previsto, das hortelãs, do manjericão, dos oregãos. Se queremos pôr os miúdos de molho numa piscina, ela diz que é só encher que ainda cabe. Quem diria que ali ainda conseguiria estender roupa?
Não sei se me convences a ficar num apartamento, cara varanda, mas se o fizer será por ti.

38

38

38 é

não perceber como tudo passou tão rápido
saber que metade já lá vai
e que há que aproveitar 

aceitar que nada na vida é certo
e estar finalmente (quase) em paz com isso

conseguir calar os medos
 enfrentar as inseguranças
aprender a ouvir a nossa voz

perdoar os erros passados
nossos e dos outros
e perdoar os erros futuros também

ter o passo mais firme
o coração mais maduro
e a cabeça mais cansada

ter junto todas as peças soltas até aqui
e descobrir que tudo faz sentido
e que bonito sentido

aceitar
acolher
acarinhar
a pessoa que somos hoje
em honra das que já fomos
e das que viermos a ser

saber quem somos
reconhecer o caminho  
sentir nas veias o sangue a pulsar
e ver o tempo a passar

pedir ao Universo
que nada nos fique por fazer
e que a história 
a nossa história
seja tão maravilhosa
quanto a sentimos ser


like a girl



No outro dia, no parque, um rapazinho chorava. Não me lembro se caíra ou se apenas queria atenção. Mas lembro-me da reação da mãe:

 - " anda, pareces uma menina a chorar!"

E eu, de mão dada à minha menina, não gostei. 

para ele

para ele para ele

Os tecidos escolhidos por ele esperavam por mim há meses. Foi necessário um "eu gosto das coisas que tu fazes, mãe" para eu saltar para a máquina de costura e num serão lhe fazer os prometidos calções de pijama. 
Por não encontrar um molde de calções para rapaz para o seu tamanho decidi fazê-lo a olho, isto é, traçando o molde com a ajuda de um par de calças já existentes. 
E ele gostou - muito. E eu gosto de o ver tão confortável com eles. E gosto de saber fazer.

E gosto dele - muito.

E vocês? Conhecem moldes para rapaz / homem que recomendem?