Bordados de Tibaldinho


Por volta de 1980, o Bordado de Tibaldinho corria sérios riscos de desaparecer, face à concorrência do "arraiolos". Desde meados do século, havia toda uma geração de mulheres da aldeia que não tinha aprendido a bordar o "tibaldinho tradicional". Tornava-se urgente um processo de sensibilização.
(...) As acções de formação, realizadas a partir dos anos oitenta do século passado, poderão (...) ter aberto as portas a um novo ciclo no processo evolutivo do Bordado de Tibaldinho. O novo rumo que lhe foi imprimido por tais acções de formação caracteriza-se, por um lado, peça sensibilização das bordadeiras para a recusa em insistir no "tibaldinho moderno ou decadente" e, por outro, pela introdução de novas formas organizativas de produção e de venda e pela recuperação de técnicas e de motivos do "tibaldinho antigo" e do "tibaldinho regional", o que tende a traduzir-se num novo estilo de características revivalistas e eclécticas.
(...) Este bordado, mais do que uma imagem, um conjunto de pontos e motivos, constitui uma actividade a que corresponde um produto, único, pelo seu valor patrimonial e simbólico. Num contexto de revalorização de elementos, entendidos como periféricos, dentro da economia rural, o bordado, como outras produções de carácter tradicional, tem vindo a ser encarado como alternativa que apoia a economia dos agregados familiares. O caminho não é fácil. Passa por um querer colectivo que co-responsabilize cada um dos intervenientes, passa pelo associativismo, passa pela organização de mecanismos que protejam a especificidade do Bordado de Tibaldinho, "capital de memória" de uma Beira que ainda existe.



Se é Primavera e o sol rompe,
elas sentam-se no rebate das suas portas e bordam.
No granito da escada, que dá acesso à varanda,
juntam-se às duas e três e bordam.
Pelo Verão,
procuram a frescura de um alpendre ou de uma latada e bordam.
Na sombra de uma oliveira, enquanto outros comem a merenda,
bordam.
Pelo Outono, dão uma fugida a ajudar nas vindímas,
mas logo recomeçam, serenas,
e bordam.
Se é Inverno e o frio aperta, juntam-se à lareira e, quer de dia quer de noite ao serão,
bordam, bordam.
Bordam tal como as suas mães, e avós, e as mães de suas avós...

Numa época em que a produção em série transformou o homem numa simples peça de máquina produtiva, desligando-o afectivamente do objecto do seu trabalho, o artesanato tem uma dupla função social: a humanização do trabalho e a produção de objectos únicos, simultaneamente úteis e artísticos.
A maravilhosa arte de bordar, como artesanato que é, é uma actividade com as suas compensações. Proporciona uma compensação material a quem a produz e transmite uma sensação de alegria e de prazer, não só a quem a executa, mas também a quem a adquire ou simplesmente a contempla.
Há pois, que continuar a envidar todos os esforços para preservar este artesanato tradicional único no país, estimulando e acarinhando todas as iniciativas nesse sentido.


Na minha aldeia,
Não há ódios, mas estimas,
Tem-se amor pela vida alheia,
Todos são primos e primas;
Sem ambições,
Cada qual seu pão granjeia,
E à noite há serões,
À luz da candeia.
Uma das paragens obrigatória desta nossa viagem era a pequena aldeia de Tibaldinho. Já tinha ouvido falar nos seus bordados típicos e o facto de serem tão pouco divulgados aumentou a minha curiosidade. Foi assim que me encontrei com a senhora Cidália Rodrigues, artesã e formadora, apaixonada pela sua terra e pelo que faz.
Fiquei a saber que as mulheres ainda se encontram nas escadas de pedra para juntas bordar, que o ano passado esta senhora quase veio a Oeiras dar formação e que continua disponível para o fazer, caso hajam interessadas.
O livro "Bordados de Tibaldinho" encontra-se à venda no Posto de Turismo de Mangualde. Num país tão rico em artesanato e tão pobre em literatura sobre o mesmo, este pequeno livro é um verdadeiro tesouro que vou guardar para sempre.
Por ver ficaram as bordadeiras nas escadas e o forno de pão comunitário. Uma óptima desculpa para voltar àquelas terras, entre muitas outras.
Quem tiver oportunidade de ir amanhã, dia 28, ao Palácio do Gelo, em Viseu, poderá ver esta artesã com os seus lindos bordados.
Como apaixonada que sou pela arte popular do nosso país, gostava que estes bordados, tal como todo o restante artesanato português, tivessem um futuro promissor. Compete-nos a nós ajudar estas artesãs, incentivando-as a continuar e a preservar este bordado que se crê ser o mais antigo de Portugal.
Para mim, a imagem de um grupo de mulheres (e homens!, nos tempos mais antigos) a bordar uma peça em conjunto é e será sempre sinónimo de um belo arrepio pela espinha.
Cidália Rodrigues
Rua Principal, 20 - Tibaldinho
3530-027 Alcafache - Mangualde

5 comentários:

muipiti disse...

Um post que gostei muito por toda a informação que passa sobre este tipo de bordados!
Hoje também estou aqui para lhe oferecer o selo "Olha que blog Maneiro" que se encontra no meu blogue http://ideiasemcontas.blogspot.com/ e onde pode verificar as regras caso queira aceitá-lo e enviá-lo a outros blogues que considere iqualmente interessantes.

muipiti disse...

Também não entendi muito bem o pedido de envio da foto e por isso so enviei os links dos blogues que selecionei.Se for por uma questão de identificação julgo que o prório blogue e respectivo e-mail será suficente.
Se entretanto conseguir esclarecer alguma coisa sobre esse pedido envio-lhe uma mensagem.

muipiti disse...

Agradeço que confira no meu blogue
http://ideiasemcontas.blogspot.com/a rectificação que fiz em relação à 7ª regra para o envio do selo "Olha que blog Maneiro" que segiu imcompleta por lapso meu.

vera disse...

um trabalho valiosíssimo !
fiquei porém muito desiludida com a aldeia de Tibaldinho, uma vez que afui visitar, desfigurada pelos incêndios à volta e por uma arquitectura feia !

Sinda disse...

Andava eu a passear pela net quando encontrei este seu post, e é com muita alegria que vejo que ainda há pessoas interessadas nas artes antigas. A minha família é toda ela de Tibaldinho. Minha Avó e Mãe foram bordadeiras exímias nos tempos em que haviam uma grande procura destes bordados no exterior. O tapete de Arraiolos também faz parte da cultura e sustento da aldeia. Quer a arte de bordar o bordado Tibaldinho como o tapete de Arraiolos era passada de pais para filhos, também os homens ajudavam na tarefa de “encher” o tapete. As famílias eram mais unidas, pois eram longas as conversas nos balcões de pedra.

Obrigada por divulgar as nossas artes das quais deveríamos ser orgulhosos.
Dias Felizes
Sinda