Dizia eu a uma amiga que o problema da mulher e do homem de hoje (e de ontem), o grande problema que carregamos nas costas, é precisamente esse fardo com que nos presenteiam ao crescer, de histórias com princípio, meio e fim, de ideias já concebidas, de crenças tão gentilmente oferecidas que levamos metade da vida a aprender a recusar.
Não fosse uma criança acreditar que tudo o que lhe dizem é verdade, e ela seria criança por muito mais tempo. Uma criança leve.
Mesmo que a leveza da infância tenha sido violada, a pessoa tem oportunidade de aprender que afinal tudo eram ideias. Ideias. Não verdades. Leva-se quase metade da vida até juntarmos todas as peças com e sem sentido, mas chega-se lá. Quando não se chega, é mau sinal.
As histórias que ouvia eram para mim um grande e delicioso refúgio. Quem as contava era mestre. Surgiam no momento, nunca se repetiam, mas o seu doce tom de encantar nunca se perdia. Não me lembro se sonhava ser uma daquelas sonhadoras princesas, ou se um dos príncipes a cavalo, livres e heróicos... a verdade é que o cerne da história, embora nunca explícito, se infiltrou também em mim.
Através do sentimento, passado de história em história, aprendi a acreditar em momentos de pura salvação da alma. E não há mal nenhum nisso.
O problemas dos contos de fadas são as personagens, os arquétipos. Que nos fazem acreditar - acreditar é não conhecer a hipótese de desacreditar - que só assim acontecerá, que é assim que tem que ser, que só assim é normal. Que esse é o procedimento natural das coisas.
Pois bem. Demorei, mas cheguei lá.
A salvação por que a princesa espera, enjaulada na sua masmorra, poderá não chegar com um princípe. O príncipe, por maior perfeição que personifique, pode não bastar. E se o conto continuasse no tempo, veríamos que assim era.
Se a princesa soubesse da existência de outras princesas e suas masmorras, de outros príncipes e seus cavalos, a princesa descia, abria a porta e sorria.
Obrigada a quem tem aparecido no meu palácio neste último ano.
A princesa não mais se sentirá só.