casa de cartão

casa casa

O expositor estava lá à nossa espera, apenas com o pacote de que precisávamos, completamente disponível para quem lhe conseguisse ver as promessas de uma vida futura. Eu não podia virar as costas e continuar o meu dia deixando-o ali. Era enorme mas coube no carro, os colaboradores estavam ocupados mas colaboraram, pela loja formou-se um rastro de açúcar mas ninguém se importou em ter que varrer - tudo porque era para fazer uma casa de brincar.

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Nature loves you.

mamã

mamã mamã
mamã


Estava sozinha no quarto há já algum tempo, em silêncio. Fui espreitar, temendo o pior, mais uma parede pintada talvez.

Encontrei um anjo a cantar para os seus bebés que dormiam em paz num mundo de amor.

as mais simples luvas sem dedos

luvas sem dedos

Era uma daquelas noites em que tinha que fazer alguma coisa do princípio ao fim. Não era preciso ficar perfeito, era preciso ficar feito. Encontrei estas luvas e decidi tentar, mais simples era impossível encontrar. Como as mãos da minha pequena companheira ainda são muito pequeninas, decidi não fazer as corujas mas sim umas pequenas flores. 
Ela acordou, calçou as luvas e nunca mais as tirou. Sem corujas, sem flores e um pouco curtas mas quentes, amarelas, e feitas pela mãe - para ela. Também te amo mil milhões, senhorita Alecrim. 

seguir o caminho

Caminho na areia, onde os passos pesam mais e deixo que o oceano me veja ali, a existir. Aquela dúvida que germinava cá dentro encontrou finalmente o seu lugar, como uma semente que espera ver a luz do sol. Talvez todas as dúvidas sejam sementes.

A vida pode exigir muito de uma pessoa. E isso é bom, eu gosto de acordar e saber que tenho muito para fazer. Mas conseguirei eu fazer tudo o que o dia pede de mim? E quando o consigo, é bem feito ou apenas feito? Estou a chegar onde quero chegar?
Tenho um pré-adolescente em casa que precisa tanto ou mais de mim agora como quando nasceu. Na verdade, ele nasce outra vez. Só que desta vez leva bagagem às costas. No outro dia apercebi-me de que já não me deitava a seu lado para ler um livro à noite há muito, muito tempo. E como soube bem voltar a fazê-lo. E como está grande, o meu bebé, que já quase não cabe na cama sozinho, quanto mais com a mãe ao lado. E ele adormeceu em paz, como dantes, feliz por ser filho.
Na outra cama, a dos pais (e dela), a pré-criança chama pela mama da mamã, porque há que saber exigir aquilo que queremos e que nos faz feliz. O que nos faz feliz é nosso por direito. Será? Acabei de inventar.

Como que a remar contra a maré, chegar ao fim do dia sem mais forças físicas e mentais para agarrar trabalho, dorme bem, até amanhã. É para isto que estou em casa? Para correr pelos dias sem conseguir fortalecer esta casa, esta família, esta minha vida? Não. 

Hoje descobri, ou melhor, aceitei que o facto de não conseguir trabalhar tanto como seria desejável me tem estado a fazer muito mal. Tudo o que faço, faço-o pensando que devia estar a trabalhar e que não o estou a conseguir fazer. E isto é pedir problemas. 
Para além de não estar a trabalhar, não estou presente naquilo que estou a fazer, seja a brincar com a senhorita Alecrim, seja a fazer o jantar para a família que está finalmente junta no seu abrigo seguro, seja mesmo a dormir, porque a tendência de quem não consegue deitar mão ao trabalho durante o dia é roubar horas à noite. 
E como se isso não bastasse, a pessoa que se culpa por não conseguir mais compara-se àqueles que o parecem conseguir. E tem medo. Tem medo de ficar para trás. E de deitar tudo a perder, depois de tanto trabalho para conseguir chegar onde chegou.

Mas o ressoar do bater das ondas hoje acalmou-me e disse-me que o meu verdadeiro caminho não é esse. O meu caminho é a tal busca da vida simples, inspirada e em comunhão com a natureza. Esse é o caminho que se abre à minha frente. E o medo acabou assim que a dúvida atingiu solo fértil. O fazer bonecos vai fazer sempre parte de mim mas não define o que sou. Ele é um ramo, não a árvore. E isso é bom e eu aceitei e o meu ego calou-se.

Isto para vos dizer que não vou aceitar mais encomendas nos próximos tempos, talvez até a cria mais nova começar a ir à escola. Espero com isto conseguir estar mais presente na vida dos meus filhos, ter mais tempo para enveredar por novos projectos, conseguir finalmente costurar para mim e muito, muito mais. 

Aqui voltarei sempre, como faço há quase seis anos, com muito gosto e muitas partilhas.



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