À sombra


Hoje brincou todo o dia debaixo da nespereira com a sua amiga I. Enquanto o pai se aventurava na construção de uma casinha em madeira, eu tive que inventar um verdadeiro acampamento para afastar os olhos curiosos de todo aquele fascinante mundo de ferramentas.

De escola passou a cozinha e logo a hotel. O hotel das mil estrelas, fiquei a saber.

Aquela nespereira aos anos que não via tamanha agitação e logo agradeceu aos meninos por nela terem reparado.
Chegou a casa cansado, satisfeito e com maçãs do rosto bem rosadinhas. Quando cheguei à cama já dormia, o que é muito raro acontecer por estes lados. Admito que fiquei um pouco triste por já o encontrar a dormir e no entanto estou sempre a contar as horas que perco a adormecê-lo... Já dormia, profundamente, e eu não o acompanhei.
Quando dorme a sua respiração embala-me. Aos poucos a minha respiração adopta o ritmo da sua e lá vou eu, para longe, calma e serena e logo me arrependo do tempo que poderia ter sido mais, das zangas que deveriam ter sido menos e dos sorrisos que não foram partilhados. Mas porque é que as louças para lavar, as roupas para passar, os almoços e jantares conseguem sempre dominar os dias e por mais que tenha tudo sobre controlo acabo por ter que lhe dizer " agora não posso"?
Não conseguia deixar de olhar para ele, de largar a sua mão, de ouvir a sua respiração - e o tempo a passar e eu a sabê-lo. Mas de vez em quando temos que mandar calar esses fantasmas dentro de nós. Porque os filhos crescem tão depressa e a sua infância nunca mais acontecerá. Porque todos nós deveríamos ser imortais e não o somos.
Como disse Mia Couto, não é a mãe que dá à luz o filho mas sim o filho que dá à luz a mãe. Nada mais verdadeiro.

3 comentários:

reimão disse...

gostei muito

reimão disse...

obrigada pela visita e claro que me pode adicionar. já agora é de onde? a minha relação com o Alentejo não era nenhuma só o sonho de vir viver para aqui. Mudámos as bagagens e a vida de cascais para o campo. vivem as saudades, mas vive também esta vontade de ficar :)

Virgínia disse...

Pensei que ainda morava em Cascais. Eu por cá estou, perto do mar e de Sintra :) mas também tenho um sonho antigo de ir para a paz do Alentejo. Vou acompanhar o seu blog e trabalho, é muito bonito. E obrigada pelas visitas também!