Ainda não digeri o dia de ontem. Estive num espaço e tempo sem chão.
Estive com Mia Couto. Ouvi-lhe a voz, vi-lhe os passos, fugi do seu olhar profundo. Era tão grande o sonho de ver o homem, que quase desisti. Tive medo. E se não correspondesse à imagem criada? E se fosse só um escritor de livros?
Não me enganei. Eu já o conhecia. Mais que o escritor, eu conhecia o homem.
Fala tão livremente como escreve, as palavras antigas acabadas de encontrar. Reparei que reparou em mim. O olhar de biólogo. Não larga até estar satisfeito. Esquece-se que olha? Enfrentei-o por uns momentos, logo desisti. É mais forte que eu. Desviei-me.
Enquanto outros lhe faziam responder às mesmas questões de sempre eu absorvia o momento. Sabia que estava a acabar. Preparava-me para o encontro. Preparava-me para o reencontro.
Quando a minha vez chegou, tudo o que preparara caiu. O tempo acabou. Parou. Tudo desapareceu. Os olhos, outra vez. Pedi-lhe que assinasse no fim do livro. Porque tinha tido medo de chegar ao fim. Como sempre tenho, quando gosto de um livro. Que li letra por letra, para adiar o fim. "E não decepcionei?" Olhou-me, num silêncio de quem não espera nada. Esperava pelo meu nome. Dei-lho. Desta vez sem olhar, disse: "A Virgínia é muito bonita, se é que me permite dizê-lo". Desarmou-me logo à primeira. Acho que agradeci. Não tive forças para lhe dizer que bonito é ele, mais que bonito. As palavras foram tropeçando para fora, desajeitadas. As vozes cada vez mais só nossas, os outros cada vez mais pesados, mais presentes.
Disse-lhe que vinha de longe para o ver. O charme apurado disse-me para ficar para o fim, que depois falávamos mais. Concordei que sim. Decidi que não. O tal medo do fim.
"A Virgínia, o que faz?" Que fazia brinquedos ou bonecos, sei lá o que disse. Ele escrevia, eu já nem sabia a razão de ali estar. Sussurrou que gostava muito. "De brinquedos?", perguntei. "De fazer brinquedos?" Não consegui perceber, mas a resposta era de que sim, abanava a cabeça que sim. Sempre que os seus olhos apanhavam os meus demoravam-se anos, devoravam-me anos. Éramos da mesma idade. Sedutor mais que treinado? Alma que encontra alma?
O nosso tempo foi maior. Demorou-se. Ao lado, marido e filho lembravam-me da minha existência no planeta. Dentro de mim, um país só meu.
Quase me esquecia de ler a sua dedicatória:
À Virgínia,
como um encantamento
sem outro fim que não seja o de uma outra história.
E esta Virgínia, pequena Virgínia, nasceu mais um pouco. E hoje já me dói o parto, se pensar que se acabou ali.
E eu que não lhe disse como recebo tudo que tem escrito para mim. Só para mim.
P.S. - a única razão para vir aqui descrever um momento tão íntimo meu é a esperança que me resta deste meu amado me encontrar pelos caminhos da internet e montado no seu cavalo branco decidir me vir buscar e me levar com ele para um lugar encantado.